CANUTO

Canuto era daqueles homens que pareciam feitos de silêncio e insistência. Caminhava devagar, com o olhar sempre desconfiado e esperto , um olhar que media o mundo antes de pisar nele. Diziam que era matreiro, brejeiro, meio sabido das artimanhas da vida. Mas, acima de qualquer fama, era um homem do trabalho.

Saía cedo, com sua sacola gasta pendendo do ombro. Lá dentro, quase nada – apenas a bateia que ele usava para faiscar ouro nos ribeiros da Campanha. Muitas vezes passava o dia inteiro no curso d’agua silencioso, virando pedras, farejando brilhos, perseguindo aquele dourado mínimo que lhe garantia o sustento. Não tinha pressa, tampouco ilusão, aprendeu cedo que ouro aparece mais por teimosia do que por sorte.

E, que quando não estava no ribeiro, estava nas hortas. Jamais abandonava quem confiava nele. Houvesse sol ardendo ou chuva fina, lá estava Canuto capinando, ajeitando os canteiros, cuidando da terra alheia como se fosse sua. Não escolhia serviço, nem gente: trabalhava para os mais velhos que o conheciam desde rapaz, e para os novos que ainda se espantavam com sua lealdade silenciosa.

Era quieto, mas observador profundo. Tinha um humor curto, mas justo. Parecia preguiçoso, mas não era. Era paciente. Não acreditava em pressa, acreditava em presença. E assim foi levando a vida: dividido entre o ouro que o ribeiro teimava em esconder e as amizades que nunca lhe faltaram. Canuto não ficou na memória por algo grandioso, ficou pelo que nunca faltou: sua constância. Não era homem de promessas. Era homem de aparecer.

Fonte: Texto adaptado do livro “Gente Simples que Eu Vi”, de João Araújo (2008).

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