A MAESTRINA
Dona Ilza Pompeu era daquelas raras criaturas que pareciam ter nascido com a música entranhada na alma. Não porque buscasse aplausos ou palcos, estes, aliás , ela dispensava com pudor quase antigo, mas porque cada gesto seu tinha o compasso certo, e cada olhar carregava a vibração de uma pauta invisível.
Seu semblante era vivo, expressivo, quase luminoso: trazia consigo a efusão da música barroca, o rigor de uma artista que conhecia profundamente a beleza dos detalhes. De exibir-se era inimiga, mas, quando assumia o papel de maestrina, transformava-se. As mãos, delicadas e firmes, desenhavam no ar caminhos sonoros que só ela sabia abrir. E o piano, seu reino mais íntimo, era pura entrega. Vibrante, intensa, irrepetível.
Mas dona Ilza não era apenas técnica. Havia nela uma camada sutil, quase mística, como se carregasse um pequeno segredo entre os dedos. Uma doçura que não era feita de açúcar, mas de alma antiga, polida pelo tempo, pela arte, pelos silêncios que ela sabia ouvir tão bem quanto as melodias que executava.
Atravessou a vida deixando trilhas: trilhas belas, leves, marcadas por uma sensibilidade que ainda hoje paira no ar de quem conviveu com ela. E quem a recorda sente como se, ao fundo, soprasse uma brisa capaz de tocar adágios, aqueles que só os grandes artistas conseguem deixar gravados no espaço.
Dona Ilza foi, acima de tudo, maestria em forma de gente, discreta, profunda, iluminada pela música que carregou até o fim, e que ainda pulsa, suave e eterna, nas memórias de todos que a amaram ou aprenderam com ela.
Fonte: Texto adaptado do livro "Bons Exemplos", de João Araújo (2008).